Caro irmão Amílcar, chego no dia 15 de janeiro de 2013. Segue abaixo as exigências que devem ser cumpridas antes de minha chegada.
Vá com minha mãe ao aeroporto de Parintins com o maleiro vazio, nada de acompanhantes extras e retire todos os litros de Whisky's de ontem. Reserve um sol pujante incrementado de ventos amormaçados recheado de humidade própria de um lugar onde nasce um sol para cada habitante. Me traga um bom CD de Chico da Silva e me recepcione ao som de Diário de um Boêmio, não saia do carro, minha saída será breve e sem muitos cumprimentos.
Vamos andar com o som em número de volume ímpar, 13, 15 ou 17, vidros recolhidos no banco de trás para observar as mudanças da velha Tupinambarana, me escolha o caminho mais longo para chegar em casa, não temos pressa, aliais deixe o relógio em casa, não o precisaremos nesse dia. Desligue o celular, desmarque reuniões, cancele eventos, tenha certeza que seremos abandonados um ao outro...
A data é comemorativa, providencie som com caixas de alta definição, quero o Monte nos violões, quero voz de David Assayag, quero o grupo Toada de Roda e Firula. Aliais "cego" sonorize a casa inteira, quartos, cozinha, corredores, banheiros, sala e pátio de entrada, pois a partir de agora, acordaremos todos os dias com músicas escolhidas na noite anterior por um de nós, isso tudo para acordarmos alegres, no mesmo horário, afinal de contas, nos informará que devemos iniciar nosso dia e temos um encontro marcado em poucos minutos em nossa mesa para o café da manhã.
Um mesa pequena, redonda, para que os cantos de uma quadrada não interrompam a vazão da liberdade e nem nos deem a impressão que estamos separados, por mais exagerado que isso possa aparecer. No café, um concentrado daqueles que nosso pai dizia nos vermos na xícara, médio açúcar, acompanhados de frutas amazônicas...tenho saudade de pupunha, tucumã, uixi coroa, banana frita e mão manual. Peça para ser servido ao canto do galo na cozinha externa, perto do fogão, com rádio ligado, cantando músicas antigas propositalmente para minha mãe lembrar dos bailes de antigamente.
No início do dia, nos leve a casa de minhas tias, vá com paciência seguindo os mesmos critérios já citados na busca ao aeroporto. Lá quero reencontro, quero abraços, beijos e choros...pensando bem, vamos pegar todos os nossos tios e leva-los para casa, quero contar-lhes como foi difícil mas a vitória recompensadora.
Mande preparar nosso almoço, um tambaqui assado na brasa, gordo com a gordura pingando no carvão e desodorizando o ambiente com o cheiro pisciano, me separe a costela, uma posta bem servida com farinha torrada e sal. Banana nanica como incremento além de uma torta de cupuaçu com bastante leite moça e creme de leite...já ia me esquecendo, nada de biscoito, frutas ou acompanhamentos elaborados, quero o sabor natural de "cupu".
Após esse banquete todo, providencie várias redes e espalhe pela casa como quem ata as redes em um barco de linha, nada de distância...preciso de proximidade. Mamãe, separe o álbum de fotos, quero rever a infância e ver que do lugar de onde há treze anos partira agora retorno.
Após dormimos, lá se vão 16:30 da tarde, hora de deixar nossos tios em suas causas, no caminho anime com uma piada daquelas que só Amílcar para contar. Após o dever cumprido, passe pelo Comuna´s, quero tomar uma cerveja gelada e pedir um tacacá para contemplar o por do sol mais majestoso do Universo (adjetivo próprio de quem ama seu lugar), emoldurado pelo caudaloso Rio Amazonas, com todo seu aluvião, galhos e troncos, premembecas e canarãnas, bastante rebojo com uma canoa atravessando humildemente esta fera indomável.
Agora meu irmão, vamos pra casa. Quero tomar banho, e do meu banheiro ouvir os sinos da Igreja do Sagrado Coração de Jesus anunciando as 18h da tarde com a mensagem do dia acompanhados de cantos gregorianos. Ali agua fria, ducha forte, toalha lavada com carinho e cuidadosamente colocada por nossa mãe para nos sentirmos afagados desde já.
Vamos nos recolher, que tal dormirmos todos, eu, você e nossa mãe no quarto dela? Vamos diminuir as luzes da frente, fechar as portas do pátio, escolher a música que tocará anunciando o próximo dia, e você deitará na cama, nossa mãe na poltrona fazendo crochê e eu deitado na rede de atravessado. Nada de Jornal Nacional, sem William Bonner, hoje o boa noite será de Enildete e de Amílcar Bentes.
Me preocupo meu " PAIM" (pai e irmão) em lhe sobrecarregar com tanta tarefa e o esquecimento tome a rédea, então façamos o seguinte, a companhia diária já será mais que suficiente. Ahhh!!!, já ia me esquecendo...o maleiro deve estar vazio porque trarei roupa para definitividade...
Será que esqueci de algo? Façamos o seguinte, vamos vivendo cada dia, e a cada dia acrescentaremos outro dia com a pitada do dia seguinte...
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
A cerimônia
Aqui estou, há 24h de meu sonho deitado em minha cama, como um recém vencedor da mega sena, pensando coisas como: para quem contarei primeiro? o que farei amanhã? como devo me comportar?, essas perguntas povoam minha mente, e ficam sem respostas e outras em quero tanto assim as respostas. Amanhã recebo o premio, suados 12 anos de estudos, 3 anos de tentativas de vestibular, 6 anos de faculdade, 3 anos de especialização.
Descobri que amanhã não é só a cerimônia de formatura da minha residência em anestesiologia, é também a chave para a realização profissional e pessoal de sonhos que há 12 anos estão armazenados e que possuo a possibilidade de realiza-los. Imagino os presentes, as autoridades, meus amigos, meus chefes todos que verão esse feito e testemunharão alí o esforço com luta suor e entrega...e que entrega.
Muitos serão os que não estarão por lá, faxineiros, porteiros, maqueiros, circulantes, enfermeiros, serventes, amigos, familiares e toda uma gama de pessoas que lhe ajudaram nem que seja com um tijolo a construir esse sonho.
Passei aqui deixando uma mensagem de alegria, pensei que seria passageiro, mais fui tão ator quantos os outros. Pessoas aqui passaram por minha vida e deixaram testemunhos grosseiros de amizade e cumplicidade. Quanta emoção, ver que depois do caso passado, de perdas tão cruciais, choros, lágrimas, desavenças, medos, traumas e angustias aqui a está...o AMANHÃ EXISTE.
Se ficarmos de braços cruzados e não batalharmos por nossos sonhos nada ocorrerá, o amanhã será fictício e o usaremos como desculpa ou consolação para vivermos mais um dia e nada mais. Sonhos, sentimentos foram plantados é chegada a hora da colheita. Daqui a pouco as 20h do dia 06 de dezembro de 2012, recebo a outorga solitariamente de uma vitória construída por dezenas.
Me vem a cabeça a lembrança infalível de meu amado pai, " caboco" simples do Lago do Piraruacá sem ambição maior, sereno, correto que nunca quis o que não era dele, e jamais que lhes tirassem o que era de seu direito. Jamais baixou a cabeça, no entanto nunca a levantou com grosseria, soberba ou autoritarismo. Em sua despreocupada cabeça, a margem de um lago paradisíaco optou por dar educação aos seus filhos e me honrou com um bem que jamais o suplantarei: Humildade
Lembro de suas histórias, sua gargalhada, seu carinho grosseiro, suas palavras...Como bem disse meu irmão Amílcar: " É hora de vestir o "paleco" e pegar seu trófeu"
Ao pegar o certificado, não o farei sozinho...será erguido de sonhos, sentimentos, amigos, irmão, os vizinhos, os primos, meus tios, meus sobrinhos, meus professores, minha cidade, meu Estado, alimentado por uma tonelada de mil sensações que fugirão a classificação gramatical e adjetivos vários...a explosão será tão grande que todos que me ajudaram a erguer este certificado sentirão.
Minha sábia, vivida e amada mãe certo dia me disse: "Filho, ninguém é profeta na sua terra", coberta de razão minha mãe...Mas a saudade me rouba o folego e é chegada a hora de regressar...36 dias!
Descobri que amanhã não é só a cerimônia de formatura da minha residência em anestesiologia, é também a chave para a realização profissional e pessoal de sonhos que há 12 anos estão armazenados e que possuo a possibilidade de realiza-los. Imagino os presentes, as autoridades, meus amigos, meus chefes todos que verão esse feito e testemunharão alí o esforço com luta suor e entrega...e que entrega.
Muitos serão os que não estarão por lá, faxineiros, porteiros, maqueiros, circulantes, enfermeiros, serventes, amigos, familiares e toda uma gama de pessoas que lhe ajudaram nem que seja com um tijolo a construir esse sonho.
Passei aqui deixando uma mensagem de alegria, pensei que seria passageiro, mais fui tão ator quantos os outros. Pessoas aqui passaram por minha vida e deixaram testemunhos grosseiros de amizade e cumplicidade. Quanta emoção, ver que depois do caso passado, de perdas tão cruciais, choros, lágrimas, desavenças, medos, traumas e angustias aqui a está...o AMANHÃ EXISTE.
Se ficarmos de braços cruzados e não batalharmos por nossos sonhos nada ocorrerá, o amanhã será fictício e o usaremos como desculpa ou consolação para vivermos mais um dia e nada mais. Sonhos, sentimentos foram plantados é chegada a hora da colheita. Daqui a pouco as 20h do dia 06 de dezembro de 2012, recebo a outorga solitariamente de uma vitória construída por dezenas.
Me vem a cabeça a lembrança infalível de meu amado pai, " caboco" simples do Lago do Piraruacá sem ambição maior, sereno, correto que nunca quis o que não era dele, e jamais que lhes tirassem o que era de seu direito. Jamais baixou a cabeça, no entanto nunca a levantou com grosseria, soberba ou autoritarismo. Em sua despreocupada cabeça, a margem de um lago paradisíaco optou por dar educação aos seus filhos e me honrou com um bem que jamais o suplantarei: Humildade
Lembro de suas histórias, sua gargalhada, seu carinho grosseiro, suas palavras...Como bem disse meu irmão Amílcar: " É hora de vestir o "paleco" e pegar seu trófeu"
Ao pegar o certificado, não o farei sozinho...será erguido de sonhos, sentimentos, amigos, irmão, os vizinhos, os primos, meus tios, meus sobrinhos, meus professores, minha cidade, meu Estado, alimentado por uma tonelada de mil sensações que fugirão a classificação gramatical e adjetivos vários...a explosão será tão grande que todos que me ajudaram a erguer este certificado sentirão.
Minha sábia, vivida e amada mãe certo dia me disse: "Filho, ninguém é profeta na sua terra", coberta de razão minha mãe...Mas a saudade me rouba o folego e é chegada a hora de regressar...36 dias!
domingo, 2 de dezembro de 2012
O vigésimo quinto dia...
Hoje o dia amanheceu diferente. Com rotina alterada, percebo que tenho um domingo inteiramente livre, coisa difícil para um "caboco" que vivia dando plantões e se ocupando com tantas tarefas. Olhei para o calendário e vi que hoje completam 25 dias para o término de uma etapa nada fácil dessa EVOLUÇÃO. Almocei e me recordei do tempero gostoso de minha mãe e pensei: "Já estarei em pouco tempo desfrutando desse manjar" engano achar que o sabor que me encanta, é ela mesma a motivadora de tudo isso.
Nas tarefas do dia uma em especial me ocorreu de urgência:" Preciso mandar lavar meu terno para a formatura", sim...para o momento preciso estar alinhado, afinal de contas médicos se socializam também. Formatura? De quem? É meus caros, dia 06 de dezembro recebo pelas mãos do CET da Santa Casa de Campo Grande a honraria de mérito, serei Anestesiologista e passa um filme em minha cabeça.
A etapa por aqui ficou longe de ser tranquila. Quem mora longe sabe do que falo, a ausência da família maltrata nos momentos mais difíceis como na doença. Mas como escutei meu velho amigo Jean Jorge, parintinense da beirada, " o sol que amolece a manteiga é o mesmo que endurece o cimento", ou seja, a mesma falta é o combustível de quem necessita retornar.
Recentemente recebi em minhas mãos o convite de minha formatura, fui tomado de emoção e publiquei no facebook, não com o intuito de se aparecer, promover ou receber inúmeros parabéns...mas sim de compartilhar com inúmeros amigos meus que estão longe e dividir essa conquista.
Recebi tantas mensagens, me emocionei com todas que achei ser um sacrilégio responde-las e macular tamanha homenagem inesperada. Logo eu, acostumado com apenas 20 curtições no máximo recebi mais de 130 mensagens de apoio, parabenizações. Vi grandes amigos falando de meu merecimento, outros desejando sucesso, outros dizendo que sou importante, uns que sentirão falta, outros que eu tenha um excelente regresso.
Que homenagem, as palavras fugirão, entrei num silêncio profundo de cada mensagem e me lembrava da importância que cada pessoa daquelas teve em minha vida. Umas arrancaram gargalhadas, outras choros, e todas sem exceção foram e são importantíssimas.
Alí recebi mensagem de professores do segundo grau, amigos pessoais de infância, amigos de turma (né Tita?) sobrinhos me emocionando com uma frase curta e significativa ( Parabéns, tio! O senhor não é só motivo de orgulho como de inspiração :)
Saudades!) aí me acabo dona Taiane. Fui chamado de vencedor por meu professor e amigo Jocifran Ramos, e isso pra mim foi um grande elogio, pois este sabe de minha trajetória, me acompanhou sempre, lembro que quando estava estudando para o vestibular, noticias me davam conta que o mestre espalhava que este ano tinha certeza que conseguiria...o incentivo definitivamente impulsiona.
Meu bom amigo Flávio Senefonte, o responsável por minha entrada no quadro de contratados da prefeitura de Campo Grande como médico, aprendi muito com esse amigo, me incentivou a ler uma obra que em minha opinião, o melhor livro que já l...O Físico de Noha Gordon. Senefa, isso me deu um gás querido e aqui estou.
Você que esta lendo esses relatos, é...isso mesmo, você, talvez esteja perto de sua mãe e não sabe o valor, perto de seus irmão e não faz a ideia de como é bom tê-los por perto. A saudade das refeições em família, o abraço fraterno, a cumplicidade diária...se você é um desses que como eu está longe de tudo e de todos, então meu amigo, se una a uns poucos e bons amigos, pois são eles quem devem lhe sustentar na jornada.
Quando vim para Campo Grande, estava minha mãe no primeiro dia de pós operatório de Colecistectomia e fui lhe dar a noticia súbita de minha ida para cá, e como sempre, a palavra certa me veio de suas bocas as seguintes palavras: "Meu filho, ninguém é profeta na sua terra, vá lá, quebre castanha na boca deles e ficarei aqui, rezando e aguardando seu retorno" .
Assim me encontro, inebriado de alegria pela conquista...mais ainda pelo reencontro próximo e saber que amigos me aguardam e torcem por mim.
Mãe, prepara o café...teu filho tá voltando...
Nas tarefas do dia uma em especial me ocorreu de urgência:" Preciso mandar lavar meu terno para a formatura", sim...para o momento preciso estar alinhado, afinal de contas médicos se socializam também. Formatura? De quem? É meus caros, dia 06 de dezembro recebo pelas mãos do CET da Santa Casa de Campo Grande a honraria de mérito, serei Anestesiologista e passa um filme em minha cabeça.
A etapa por aqui ficou longe de ser tranquila. Quem mora longe sabe do que falo, a ausência da família maltrata nos momentos mais difíceis como na doença. Mas como escutei meu velho amigo Jean Jorge, parintinense da beirada, " o sol que amolece a manteiga é o mesmo que endurece o cimento", ou seja, a mesma falta é o combustível de quem necessita retornar.
Recentemente recebi em minhas mãos o convite de minha formatura, fui tomado de emoção e publiquei no facebook, não com o intuito de se aparecer, promover ou receber inúmeros parabéns...mas sim de compartilhar com inúmeros amigos meus que estão longe e dividir essa conquista.
Recebi tantas mensagens, me emocionei com todas que achei ser um sacrilégio responde-las e macular tamanha homenagem inesperada. Logo eu, acostumado com apenas 20 curtições no máximo recebi mais de 130 mensagens de apoio, parabenizações. Vi grandes amigos falando de meu merecimento, outros desejando sucesso, outros dizendo que sou importante, uns que sentirão falta, outros que eu tenha um excelente regresso.
Que homenagem, as palavras fugirão, entrei num silêncio profundo de cada mensagem e me lembrava da importância que cada pessoa daquelas teve em minha vida. Umas arrancaram gargalhadas, outras choros, e todas sem exceção foram e são importantíssimas.
Alí recebi mensagem de professores do segundo grau, amigos pessoais de infância, amigos de turma (né Tita?) sobrinhos me emocionando com uma frase curta e significativa ( Parabéns, tio! O senhor não é só motivo de orgulho como de inspiração :)
Meu bom amigo Flávio Senefonte, o responsável por minha entrada no quadro de contratados da prefeitura de Campo Grande como médico, aprendi muito com esse amigo, me incentivou a ler uma obra que em minha opinião, o melhor livro que já l...O Físico de Noha Gordon. Senefa, isso me deu um gás querido e aqui estou.
Você que esta lendo esses relatos, é...isso mesmo, você, talvez esteja perto de sua mãe e não sabe o valor, perto de seus irmão e não faz a ideia de como é bom tê-los por perto. A saudade das refeições em família, o abraço fraterno, a cumplicidade diária...se você é um desses que como eu está longe de tudo e de todos, então meu amigo, se una a uns poucos e bons amigos, pois são eles quem devem lhe sustentar na jornada.
Quando vim para Campo Grande, estava minha mãe no primeiro dia de pós operatório de Colecistectomia e fui lhe dar a noticia súbita de minha ida para cá, e como sempre, a palavra certa me veio de suas bocas as seguintes palavras: "Meu filho, ninguém é profeta na sua terra, vá lá, quebre castanha na boca deles e ficarei aqui, rezando e aguardando seu retorno" .
Assim me encontro, inebriado de alegria pela conquista...mais ainda pelo reencontro próximo e saber que amigos me aguardam e torcem por mim.
Mãe, prepara o café...teu filho tá voltando...
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
A chegada...
Após os altos e baixos, chega o último ano de faculdade. Dezembro de 2009 marcaria o mês da conquista de uma etapa. Estando a turma reunida em uma sala da Faculdade iriamos escolher naquela noite o ORADOR da turma. Foi disposto 2 nomes e fui presenteado com tal honraria. o silêncio em meus ouvidos tomaram de conta e me embrulhou o estômago. Não sabia o que falar a todos, as palavras fugiram...
Lembro-me que montei um texto cheio de palavras difíceis e complicadas, de um português digamos: barroco. Enviei o texto ao meu amigo e professor de português Jocifran e obtive como resposta: "...li seu texto, muito bom, no entanto, tenho certeza que poderia ser melhor..." Aquelas palavras me renderam ao chão, pior...restavam 5 dias para a oratória.
Faltando 3 dias, cheguei em casa e tive uma vontade de escrever de uma forma simples, dinamica e principalmente: sendo eu próprio, e de uma vez só, surge o texto de minha oratória que vos publico na íntegra:
A peleja foi grande e como aprendemos, conhecemos grandes nomes da medicina do nosso Estado, muitos deles nossos conterrâneos, alguns além de médico de homens eram médicos de almas, e assim fomos nos espelhando e desenhando nosso perfil profissional, traçando metas, superando obstáculos, um universo gigantesco formado de pequenas células revelava-se uma maquina perfeita a qual seus reparadores admiravam-na a todo instante.
De nada teria valia a aprovação no vestibular, o orgulho de nossos pais, a oportunidade ofertada por nossos professores e o amor a nossa profissão se não mantermos nossos instrumentos afiados para a prática médica, reciclar nossos conhecimentos é nos armar de munições para concedermos melhor condição de tratamento aos nossos pacientes contra as mazelas que os afligem. Que levantemos a bandeira do MEDICARE, do latim: ato médico de cuidar, ao invés de dobrarmos o joelho para o REMEDIAR, ato paliativo sem possibilidade de cura evidente. Ao esquecermos o mecanicismo do atendimentos tenhamos em mente nossa função enquanto filhos de Hipocrates: “Consolar sempre, aliviar muitas, curar algumas vezes”.
Lembro-me que montei um texto cheio de palavras difíceis e complicadas, de um português digamos: barroco. Enviei o texto ao meu amigo e professor de português Jocifran e obtive como resposta: "...li seu texto, muito bom, no entanto, tenho certeza que poderia ser melhor..." Aquelas palavras me renderam ao chão, pior...restavam 5 dias para a oratória.
Faltando 3 dias, cheguei em casa e tive uma vontade de escrever de uma forma simples, dinamica e principalmente: sendo eu próprio, e de uma vez só, surge o texto de minha oratória que vos publico na íntegra:
"Caros presentes, ao som deste carimbó do Mestre Pinduca recebiamos assustados a notícia mais aguardada: FOMOS APROVADOS! O mundo que estava em nossas costas pela pressão exercida do vestibular repentinamente levitou, e acreditem quando diziamos que não acreditavamos no feito era a mais pura verdade, parece ser um sentimento próprio de uma conquista difícil achar que não somos capazes.
Manaus, 15 de dezembro de 2003, sexta-feira...como a cidade ficou pequena, quão minúsculo ficou o planeta com tanta felicidade que transbordavamos entre sorrisos e lágrimas, distribuiamos abraços como doidos varridos e tivemos status de pop star em nossa família, éramos notícia...Quando chegavam visitas em nossas casas já não chamavam por nossos nomes, funcionava mais ou menos assim: “Fulano vem cá, quero te apresentar pra ciclano” E chegavamos ao ciclano e a apresentação era completada: “Olha esse que passou no vestibular pra Medicina” De cabelos raspados e encabulados saíamos da cena. Tudo era festa.
Olha essa história que o homem tem que plantar uma árvore, escrever um livro e ter filhos está incompleta, antes de morrer, devemos experimentar passar no vestibular, caso contrário, nosso organismo não sentirá o conjunto de sensações tão conflitantes e ao mesmo tempo tão normais que extremessem o corpo e tremulam a mente pertubando cátions e ânios com tal acontecimento; fica o convite aos próximos...
Muitos de nós viemos do interior do Amazonas deixando seu município de origem, e não só isso, ao embarcarmos para manaus prometemos pra nós que retornariamos apenas formados, e em hipotese alguma fracassariamos. As paredes verdes-clara que nos circundam deram o tom durante esses 6 anos de nossa nova casa: A Escola Superior de Ciências da Saúde, e lá, encontrariamos outros agraciados com uma vaga de medicina até então desconhecidos...e mal sabíamos que além de uma nova casa ganhavamos uma nova família. A solidão e a tristeza pela distância era atenuada com a presença de nossos novos integrantes da família e nossa família se confundia com a família deles tecendo uma corrente inquebrável.
Ah a saudade, abdicamos nossos quartos, o lugar na mesa de jantar, a comida saborosa da mamãe, as brigas com nossos irmãos, a repreensão dos pais, o cachorro, nossos amores, as regalias...Só não deixavamos que nossa conta bancária ficasse no vermelho, e como nossos pais foram heróis...a prova disso Senhoras e Senhores, é que hoje neste auditório nossos PAIS recebem o papel nesta cerimônia de PATRONO desta turma, por tentarem diminuir as distâncias geográficas e serem nossos sustentáculos quando muitas das vezes pensamos em desistir, e mais SENHORES PATRONOS, se somos agora formandos e dentro de instantes médicos foi pensando na felicidade de vocês neste momento. Sonhamos com esse dia com vocês chegando aqui, dos quatro cantos desta pátria verde e se esbaldarem de orgulho. Tudo está consumado.
Em nada resultaria o esforço se não contassemos com a paciência e a oportunidade dispensada por nossos professores que dentro de instantes, perante todos em nosso juramento proclamaremos: “Estimar tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte”. Representados aqui por nosso professora homenageada Dra. Kátia do Nascimento Colares a qual emprestou seu nome a esta turma firmando o compromisso que cada um de nós temos em honrar seu nome e indiretamente todos os nossos professores.
Professor Doutor Euler Esteves Ribeiro, nosso Paraninfo, seu SIM para o aceite de nosso convite demonstrou o quanto eramos queridos, como foi especial saber que um profissional que tanto fez e continua fazendo pelo “homem da floresta” presencia este momento único em nossa vida e compartilha sua sabedoria. Dra Kátia Couceiro, Dr. Euler Ribeiro seus nomes estão gravados em nossos convites, cravados em nossa placa e eternizado em nossas mentes, assim como todos os professores que encontram-se anônimos nesta cerimônia.
Aos nossos familiares, avós e avôs, tios e tias, primos e primas, sobrinhos e sobrinhas, irmãos e irmãs muito obrigado pela torcida, unissonos dividiremos essa conquista com vocês...Nós conseguimos, Nós conquistamos.
Infelizmente a morte ceifa vidas e as recolhe de nosso meio, durante esta batalha ou talvez muito antes, perdemos pessoas importantíssimas que até então não nos viamos neste momento sem elas. Como é difícil perder alguem empenhado em nos amar tanto, a se doar de toda alma por nós, distribuir carinho igualmente sem demonstrar predileção. A separação entre esses dois mundos açoitam nossos corações e inviabilizam a subida deles em matéria concreta por essas escadas em direção ao nosso diploma. No entanto este é um momento mágico e sabemos que do lugarzinho habitado agora, vocês estão satisfeitos e radiantes de felicidade, nos ajudem...Pai valeu por não esquecer de mim nos momentos dificeis, TE AMO.
O mundo é formado de portas que dão acesso a conquistas e derrotas, e a chave da humildade destranca a todas e torna nossa passagem mais agradável. Oxalá nosso Pai Criador permita que nossos conhecimentos não suplantem a importância da vida e o respeito ao ser humano.
Existe uma pequena história sobre o lenhador, ele era conhecido por ser trabalhador e foi contratado por um Nobre Senhor, no primeiro dia de trabalho colocou ao chão mais hectares do que 2 homens em um dia de trabalho, porém caia de produção com o decorrer dos dias, e o Nobre Senhor lhe indagou: Lenhador não estás descansando em demasia? Ao menos amola teus instrumentos? E ele o respondeu: Senhor tenho trabalhado sem interrupções para entregar-lhe teu campo, não me resta tempo nem para o descando e muito menos para amolar meus instrumentos...
Em Eclesiástico 38 versículo de 1 a 15 é ditado: “Honra ao médico por causa da necessidade, pois foi o Altíssimo quem o criou; toda medicina provém de Deus; virá um tempo em que cairás nas mãos deles, e eles mesmos rogarão ao Senhor”
Instruidos por tua palavra te pedimos Senhor Nosso Deus, passe em nossa frente e desarme todas as ciladas e tribulações, nos mantenha firmes na fé e nos use como instrumentos de tuas benfeitorias...Amém." Manaus, 17 de dezembro de 2009. Dênison Lima Bentes
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Força
De todos os sentimentos, o retorno para casa sem nosso pai foi o pior. Regressar a onde fomos criados e não reencontrar o elemento "papai" em nossa residência desolava-nos.
Dinamicamente a vida continuava, e fiquei angustiado ao perceber que depositado o corpo inerte de nosso patriarca o mundo girava sem esperar nosso restabelecimento, as obrigações acumuladas após o óbito deviam ser resolvidas. Lembro-me dos amigos, ligações, preocupações no retorno para as atividades da faculdade, sem dúvida, não seria mais o mesmo.
De agora em diante pensava: vou suportar sua ausência em minha formatura? Fará sentido continuar um show no qual as principais palmas foram ocultadas?, olhei para meu lado, e percebi naquele momento, no retorno do cemitério, que tinha perdido um pai no entanto ganhado outros 3, ( Rildo, Amilcar e Gilson), e 2 mães ( a genitora, e Rosemere), e não podia decepcioná-los.
Tenho irmãos constituídos de minha faculdade, pessoas dignas, como foram e são importantes em minha vida. Alison Martins, Adam Martins, Carlo Valdivia, Daniel Oliveira, Bergson Alves e Egreen Baranda, faço uma homenagem aos amigos irmãos que enriqueceram minha vida com vossas presenças, e deram sentido a palavra AMIGO. Rimos, estudamos, choramos em três momentos: a morte passada, o bota fora, e em nossa formatura, nada mais, pois não há na tristeza utilidade alguma.
Hoje distantes, falamos poucas vezes ao telefone. Ao Mestre Jocifran, da mesma maneira. Já diria Vinicius:
Dinamicamente a vida continuava, e fiquei angustiado ao perceber que depositado o corpo inerte de nosso patriarca o mundo girava sem esperar nosso restabelecimento, as obrigações acumuladas após o óbito deviam ser resolvidas. Lembro-me dos amigos, ligações, preocupações no retorno para as atividades da faculdade, sem dúvida, não seria mais o mesmo.
De agora em diante pensava: vou suportar sua ausência em minha formatura? Fará sentido continuar um show no qual as principais palmas foram ocultadas?, olhei para meu lado, e percebi naquele momento, no retorno do cemitério, que tinha perdido um pai no entanto ganhado outros 3, ( Rildo, Amilcar e Gilson), e 2 mães ( a genitora, e Rosemere), e não podia decepcioná-los.
Tenho irmãos constituídos de minha faculdade, pessoas dignas, como foram e são importantes em minha vida. Alison Martins, Adam Martins, Carlo Valdivia, Daniel Oliveira, Bergson Alves e Egreen Baranda, faço uma homenagem aos amigos irmãos que enriqueceram minha vida com vossas presenças, e deram sentido a palavra AMIGO. Rimos, estudamos, choramos em três momentos: a morte passada, o bota fora, e em nossa formatura, nada mais, pois não há na tristeza utilidade alguma.
Hoje distantes, falamos poucas vezes ao telefone. Ao Mestre Jocifran, da mesma maneira. Já diria Vinicius:
"Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"
terça-feira, 8 de março de 2011
Ao meu amado Pai
No tabuleiro da vida somos peças dispostas. Existem momentos onde cada pedra é movimentada ao seu momento, e por mais confuso seja o rumo, só entenderemos a jogada ao final, o ano de 2003 marcou a vitória a superação, achava eu ter atingido todas as metas...o fato é: após o diagnóstico do meu pai de Hanseníase Puramente Neural, parece ter acionado o cronometro, e dali pra frente, seguiram-se algumas intervenções cirúrgicas para liberação de seu nervo espessado, melhoras em seu estado e ao mesmo tempo decaídas , mas, sem minha aprovação no vestibular não teria acompanhado seu tratamento, e todas as minhas férias foram dedicadas ao cuidado de meu pai.
Aos 67 anos de idade sonhava ainda em andar, homem simples, conhecido no "igarapé dos Currais", filho de Mário Lobo, admirado pela retidão, palavra e trabalho. Lembro quando saímos de Manaus com destino a Parintins logo depois do seu diagnóstico e do procedimento cirúrgico, queria retornar ao seu habitat, navegamos juntos em direção ao lugar onde nasceu, fazenda Aliança, lá tomou banho de rio e expôs sua melhora momentânea, ele era duro na queda...
Já aprovado e cursando o final do terceiro ano início do 4 ano de faculdade, precisamente no dia 21 de janeiro de 2006, me encontrava em Parintins junto com meu irmão Amilcar, por volta das 20:00h, recebo um telefonema dando conta que meu pai estava na UTI, supostamente teria sofrido um AVE. E ali, naquele instante iniciaria sua via crucis. Não tive coragem de vê-lo e durante 14 dias fugia dessa visão, apesar de absurdo, passou em minha mente que talvez ele estivesse nos esperando para partir, e então resolvi ir ao seu encontro.
Na UTI, estava ele, como um Andróide em reparo, cheio de tubos e proteções, visão que mesmo como médico fugiu a meu controle, tentei não chorar, no entanto, olhando em seu corpo cansado me rendi a suas supostas dores, mesmo compreendendo seu estado comatoso restava-lhe a cura das dores da alma. Naquele momento pensei imediatamente se havia deixado de lhe dizer algo, e em minha lembrança vaga nada veio em mente. Beijei seu rosto gelado e pálido, e até hoje carrego aquela lembrança.
Meu irmão Gilson foi incansável, todos os dias o visitava na UTI, e para mim, restava o amargor de passar em frente todos os dias do hospital e lembrar de dar bom dia ou boa noite ao meu bom e velho pai. Os horários da visita quase sempre não batiam com os horários da faculdade, mas, sábado e domingo eram sagrados a visita...geralmente minha mãe e eu, ao insistir, Gilson entrava também. Imaginem um procedimento? Então meu pai fez, foi traquestomizado, recebeu drenos bilaterais de tórax após desenvolver uma pneumonia por S. aureus, debridamentos de escaras enfim, passou por uma batalha interminável.
Durante nossas visitas, tentávamos nos agarrar em pequenos gestos que julgávamos ser de lucidez ou orientação, esboçávamos desenhos de sorrisos em seus lábios, fotos e até vídeos em sua frente na tentativa de fazer lembra-lo ou dar sentido em sua luta. Será que nos notou? Ele estava lúcido? Escultou nossas noticias e orações? Não sabemos...
Durante longos nove meses no CTI, vimos outras familias perderem seus parentes, e seu Manoelino estava alí, jovens morreram, conhecemos outras familias, ficamos agradecidos pela equipe que cuidava dele, lembro-me de um nome Socorro, ela o cuidava como seu Pai. Festejamos no dia 06 de junho de 2006 seus 70 anos, levamos bolo, salgado e refrigerante a toda equipe do CTI, tivemos a chance de nesse dia todos, verem e parabenizar um Pai que bravamente fugia da morte.
Um dia, o encontramos sentado na poltrona, e fomos informados que ele receberia alta para o quarto, não nos contivemos, e ficamos enlouquecidos de felicidade com a oportunidade real de todos em comum sairem daquela pelegrinação e claro, ter melhor acesso a ele. Ao chegar no quarto, percebemos que o mesmo não tinha condições e pessoal treinado para cuidar dele, e novamente ele é reinternado na UTI.
No dia 03 de novembro de 2006, fomos informados que seus rins estavam em falência, somente a hemodiálise melhoraria seu quadro, sendo pra mim a gota dágua. Avisamos a toda equipe que em caso de parada cardiaca o deixa-se partir, nosso egoísmo em tê-lo entre nós deveria chegar ao fim, negamos a hemodiálise e nos preparamos para sua partida.
Ás 07h da manhã, meu irmão Gilson foi a missa na Igreja de São Sebastião, desejou profundamente que meu pai recebesse a comunhão por ele, e no seu interior, percebeu que assim o fez...Foi até a UTI e ao longe via a pressão arterial diminuir a cada mensuração, seus batimentos diminuíam vagarosamente, e as 8h da manhã do dia 05 de novembro de 2006, após a colocação do escapulário em seu pescoço, morre Manoelino de Oliveira Bentes, o homem cujo nome era conhecido em sua terra...
Inúmeros amigos me sustentaram nessa perda. Egreen, só posso dizer, você foi foda demais, teve presente a todo instante, um dia pegaremos um porre e conversaremos. Ezequiel Cabral, mosntro sagrado de Porto Velho, tão nervoso que ao não saber me consolar, comprou-me duas cocas e me entregou. Alison, Adam, Daniel, Carlo Valdivia, Bergson ainda falarei em detalhes desses meus irmãos que fizeram hoje eu concluir essa faculdade, claro, junto com minha mãe e meus irmãos.
Ao perder meu pai, além de emocionado por sua ausência eterna, lidava com a emoção do carinho e apreço que o devotavam, amigos de longe vieram prestar homenagens, coroas de flores de pessoas desconhecidas para nós mas amigas dele, rodeavam seu corpo inerte.
Acabava alí sua vida, e a nós, restava retornar para casa sem sua presença, e iniciar do ponto de parada as nossas vidas...
Aos 67 anos de idade sonhava ainda em andar, homem simples, conhecido no "igarapé dos Currais", filho de Mário Lobo, admirado pela retidão, palavra e trabalho. Lembro quando saímos de Manaus com destino a Parintins logo depois do seu diagnóstico e do procedimento cirúrgico, queria retornar ao seu habitat, navegamos juntos em direção ao lugar onde nasceu, fazenda Aliança, lá tomou banho de rio e expôs sua melhora momentânea, ele era duro na queda...
Já aprovado e cursando o final do terceiro ano início do 4 ano de faculdade, precisamente no dia 21 de janeiro de 2006, me encontrava em Parintins junto com meu irmão Amilcar, por volta das 20:00h, recebo um telefonema dando conta que meu pai estava na UTI, supostamente teria sofrido um AVE. E ali, naquele instante iniciaria sua via crucis. Não tive coragem de vê-lo e durante 14 dias fugia dessa visão, apesar de absurdo, passou em minha mente que talvez ele estivesse nos esperando para partir, e então resolvi ir ao seu encontro.
Na UTI, estava ele, como um Andróide em reparo, cheio de tubos e proteções, visão que mesmo como médico fugiu a meu controle, tentei não chorar, no entanto, olhando em seu corpo cansado me rendi a suas supostas dores, mesmo compreendendo seu estado comatoso restava-lhe a cura das dores da alma. Naquele momento pensei imediatamente se havia deixado de lhe dizer algo, e em minha lembrança vaga nada veio em mente. Beijei seu rosto gelado e pálido, e até hoje carrego aquela lembrança.
Meu irmão Gilson foi incansável, todos os dias o visitava na UTI, e para mim, restava o amargor de passar em frente todos os dias do hospital e lembrar de dar bom dia ou boa noite ao meu bom e velho pai. Os horários da visita quase sempre não batiam com os horários da faculdade, mas, sábado e domingo eram sagrados a visita...geralmente minha mãe e eu, ao insistir, Gilson entrava também. Imaginem um procedimento? Então meu pai fez, foi traquestomizado, recebeu drenos bilaterais de tórax após desenvolver uma pneumonia por S. aureus, debridamentos de escaras enfim, passou por uma batalha interminável.
Durante nossas visitas, tentávamos nos agarrar em pequenos gestos que julgávamos ser de lucidez ou orientação, esboçávamos desenhos de sorrisos em seus lábios, fotos e até vídeos em sua frente na tentativa de fazer lembra-lo ou dar sentido em sua luta. Será que nos notou? Ele estava lúcido? Escultou nossas noticias e orações? Não sabemos...
Durante longos nove meses no CTI, vimos outras familias perderem seus parentes, e seu Manoelino estava alí, jovens morreram, conhecemos outras familias, ficamos agradecidos pela equipe que cuidava dele, lembro-me de um nome Socorro, ela o cuidava como seu Pai. Festejamos no dia 06 de junho de 2006 seus 70 anos, levamos bolo, salgado e refrigerante a toda equipe do CTI, tivemos a chance de nesse dia todos, verem e parabenizar um Pai que bravamente fugia da morte.
Um dia, o encontramos sentado na poltrona, e fomos informados que ele receberia alta para o quarto, não nos contivemos, e ficamos enlouquecidos de felicidade com a oportunidade real de todos em comum sairem daquela pelegrinação e claro, ter melhor acesso a ele. Ao chegar no quarto, percebemos que o mesmo não tinha condições e pessoal treinado para cuidar dele, e novamente ele é reinternado na UTI.
No dia 03 de novembro de 2006, fomos informados que seus rins estavam em falência, somente a hemodiálise melhoraria seu quadro, sendo pra mim a gota dágua. Avisamos a toda equipe que em caso de parada cardiaca o deixa-se partir, nosso egoísmo em tê-lo entre nós deveria chegar ao fim, negamos a hemodiálise e nos preparamos para sua partida.
Ás 07h da manhã, meu irmão Gilson foi a missa na Igreja de São Sebastião, desejou profundamente que meu pai recebesse a comunhão por ele, e no seu interior, percebeu que assim o fez...Foi até a UTI e ao longe via a pressão arterial diminuir a cada mensuração, seus batimentos diminuíam vagarosamente, e as 8h da manhã do dia 05 de novembro de 2006, após a colocação do escapulário em seu pescoço, morre Manoelino de Oliveira Bentes, o homem cujo nome era conhecido em sua terra...
Inúmeros amigos me sustentaram nessa perda. Egreen, só posso dizer, você foi foda demais, teve presente a todo instante, um dia pegaremos um porre e conversaremos. Ezequiel Cabral, mosntro sagrado de Porto Velho, tão nervoso que ao não saber me consolar, comprou-me duas cocas e me entregou. Alison, Adam, Daniel, Carlo Valdivia, Bergson ainda falarei em detalhes desses meus irmãos que fizeram hoje eu concluir essa faculdade, claro, junto com minha mãe e meus irmãos.
Ao perder meu pai, além de emocionado por sua ausência eterna, lidava com a emoção do carinho e apreço que o devotavam, amigos de longe vieram prestar homenagens, coroas de flores de pessoas desconhecidas para nós mas amigas dele, rodeavam seu corpo inerte.
Acabava alí sua vida, e a nós, restava retornar para casa sem sua presença, e iniciar do ponto de parada as nossas vidas...
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Sensações...
Ao retornar a Manaus trazia comigo a inquietação da possibilidade real de aprovação, passaram-se junho, julho e início de agosto de 2003, precisamente no dia 15 de agosto daquele ano às 15h da tarde, Amarildo, amigo irmão de meu irmão Gilson me liga dando a notícia da aprovação no vestibular da Universidade do Estado do Amazonas...
Tudo foi consumado, o filho caçula da família Lima Bentes acabara de ser aprovado no vestibular. No apartamento, minha cunhada e eu nos abraçávamos entre gritos e choros desesperados da incredulidade e felicidade ( e quem foi aprovado no vestibular sabe disso, parece que não cai a ficha) próprios de quem aguardou a notícia como o sopro da vida, tão qual o asmático deseja o ar, o barco porto seguro, o abraço o colo a mãe ao filho. Naquele momento, palpitações, pernas trêmulas, nervosismo e rouquidão emolduravam minha matéria cansada das amargas tristezas, curtidas de ausência de norte...Pensava em várias coisas, e principalmente em meus pais, imaginava a alteração que ocorreria neles, a felicidade de dividir comigo o encaminhamento para o futuro.
Ao ligar para meus pais, falei com minha mãe por primeiro e cantávamos a marcha do vestibular, ela dizia do quão tamanha alegria lhe ofertara naquela tarde, o quanto seu coração estava tomado de felicidade, orgulhosa de mim pela conquista...Ao escutar a voz de meu pai as palavras cessaram, tive um choro tão profundo que me faltava ar, lembrei de sua história, sua trajetória, lembro-me de que mesmo com sua forma desajeitada com as palavras ele me dizia: "Filho, meus parabéns pela conquista, sou um homem realizado, eu te amo muito, tenha humildade..." e entramos em um choro profuso.
E não ficou por aí, de quebra minha sobrinha Riselma conquistou a aprovação também. Naquela tarde logo em seguida do resultado meu amigo Moisés Saback e minha sobrinha, saímos para dar uma volta, tomei uma Scarloff limão que guardo o recepiente até hoje, aquela noite seria pequena...Encontrei com todos meus irmãos em uma pizzaria a noite próximo da Universidade, alí vi minha base reunida, todos que durante as tormentas continuaram comigo firmes.
Graças a Deus agora poderia pensar em novos horizontes, poderia pensar em um cartão de crédito universitário ( e que sensacional comprar nossas grades de cerveja no crédito, 1 mês passava três meses não..kkkkk), férias, tranquilidade, só me vinham coisas boas. Embarquei para Parintins e lá encontrei meu irmão Amilcar e meus Pais.
Passei um mês por lá, nesse meio tempo lembro-me da aproximação com Amilcar, das inúmeras viagens que fizemos de lancha por Terra Santa, cidade próxima do local de nascimento de meus irmãos, Faro, Nhamundá e outros. Chegamos até Juruti no estado do Pará.
No entanto, meu pai ainda me preocupava, continuava com as enormes dores e o pior, pai de filhos médicos sem diagnóstico. Após a temporada de descanso, dia 31 de agosto de 2003, em uma tarde, minha mãe e meu pai nos reunimos para rezar o terço. Meu pai deitado na rede, minha mãe sentada comigo na cama, e entre ave-marias meu pai agonizava alguns "ais", aquilo me martirizava.
Comecei a desejar profundo rever a Senhora que outrora apareceu quando meu irmão Gilson rezávamos em seu apartamento, não mais que de repente, a Senhora entrou no quarto sorrindo, majestosa, e dessa vez identificou-se: "Filho, anuncie minha chegada, diga que Nossa Senhora veio rezar convosco", a emoção foi intensa, perguntei ao meu pai o que sentira e ele respondeu: Paz, minha mãe falou: Nossa Senhora está aqui!, não esqueço a cena, ela foi se aproximando de meu pai deitado na rede, impôs as mãos sobre as pernas de meu pai e acariciavam-nas, ao visualizar isso, percebi que a Senhora iniciou a caminhar em minha direção, sentou do lado de minha mãe, juntou as mãos e começou a rezar conosco, de repente, ela levanta e fala: Anuncie que a graça foi concedida...
Senhores, meus irmãos e minha mãe estão de prova, após 07 dias meu pai e eu fomos para Manaus, e resolvemos levar meu pai em um cirurgião da Fundação Alfredo da Matta, Hospital de Doenças dermatológicas e Hanseníase. Ao colocar o olho nas pernas de meu pai, Dr. Pedro Aurélio nos informa: o Diagnóstico é de Hanseníase puramente neural, uma polineuropatia raríssima, com poucos bacilos, de comportamento agressivo, em tratando, existe possibilidade de cura...Gilson e eu estávamos presentes, e só vinha a tona o fato ocorrido naquele terço com meus Pais: "Anuncie que a graça foi concedida", queríamos o diagnóstico e tivemos, ficamos muito felizes e lembro que meu pai falou: vocês estão felizes com o diagnóstico de uma doença? e respondemos, antes não sabíamos para onde rumar e agora sabemos
Ano vitorioso, vestibular, férias, comemorações e o mais importante: diagnóstico da doença de meu pai e mal sabíamos, sua via crucis
Tudo foi consumado, o filho caçula da família Lima Bentes acabara de ser aprovado no vestibular. No apartamento, minha cunhada e eu nos abraçávamos entre gritos e choros desesperados da incredulidade e felicidade ( e quem foi aprovado no vestibular sabe disso, parece que não cai a ficha) próprios de quem aguardou a notícia como o sopro da vida, tão qual o asmático deseja o ar, o barco porto seguro, o abraço o colo a mãe ao filho. Naquele momento, palpitações, pernas trêmulas, nervosismo e rouquidão emolduravam minha matéria cansada das amargas tristezas, curtidas de ausência de norte...Pensava em várias coisas, e principalmente em meus pais, imaginava a alteração que ocorreria neles, a felicidade de dividir comigo o encaminhamento para o futuro.
Ao ligar para meus pais, falei com minha mãe por primeiro e cantávamos a marcha do vestibular, ela dizia do quão tamanha alegria lhe ofertara naquela tarde, o quanto seu coração estava tomado de felicidade, orgulhosa de mim pela conquista...Ao escutar a voz de meu pai as palavras cessaram, tive um choro tão profundo que me faltava ar, lembrei de sua história, sua trajetória, lembro-me de que mesmo com sua forma desajeitada com as palavras ele me dizia: "Filho, meus parabéns pela conquista, sou um homem realizado, eu te amo muito, tenha humildade..." e entramos em um choro profuso.
E não ficou por aí, de quebra minha sobrinha Riselma conquistou a aprovação também. Naquela tarde logo em seguida do resultado meu amigo Moisés Saback e minha sobrinha, saímos para dar uma volta, tomei uma Scarloff limão que guardo o recepiente até hoje, aquela noite seria pequena...Encontrei com todos meus irmãos em uma pizzaria a noite próximo da Universidade, alí vi minha base reunida, todos que durante as tormentas continuaram comigo firmes.
Graças a Deus agora poderia pensar em novos horizontes, poderia pensar em um cartão de crédito universitário ( e que sensacional comprar nossas grades de cerveja no crédito, 1 mês passava três meses não..kkkkk), férias, tranquilidade, só me vinham coisas boas. Embarquei para Parintins e lá encontrei meu irmão Amilcar e meus Pais.
Passei um mês por lá, nesse meio tempo lembro-me da aproximação com Amilcar, das inúmeras viagens que fizemos de lancha por Terra Santa, cidade próxima do local de nascimento de meus irmãos, Faro, Nhamundá e outros. Chegamos até Juruti no estado do Pará.
No entanto, meu pai ainda me preocupava, continuava com as enormes dores e o pior, pai de filhos médicos sem diagnóstico. Após a temporada de descanso, dia 31 de agosto de 2003, em uma tarde, minha mãe e meu pai nos reunimos para rezar o terço. Meu pai deitado na rede, minha mãe sentada comigo na cama, e entre ave-marias meu pai agonizava alguns "ais", aquilo me martirizava.
Comecei a desejar profundo rever a Senhora que outrora apareceu quando meu irmão Gilson rezávamos em seu apartamento, não mais que de repente, a Senhora entrou no quarto sorrindo, majestosa, e dessa vez identificou-se: "Filho, anuncie minha chegada, diga que Nossa Senhora veio rezar convosco", a emoção foi intensa, perguntei ao meu pai o que sentira e ele respondeu: Paz, minha mãe falou: Nossa Senhora está aqui!, não esqueço a cena, ela foi se aproximando de meu pai deitado na rede, impôs as mãos sobre as pernas de meu pai e acariciavam-nas, ao visualizar isso, percebi que a Senhora iniciou a caminhar em minha direção, sentou do lado de minha mãe, juntou as mãos e começou a rezar conosco, de repente, ela levanta e fala: Anuncie que a graça foi concedida...
Senhores, meus irmãos e minha mãe estão de prova, após 07 dias meu pai e eu fomos para Manaus, e resolvemos levar meu pai em um cirurgião da Fundação Alfredo da Matta, Hospital de Doenças dermatológicas e Hanseníase. Ao colocar o olho nas pernas de meu pai, Dr. Pedro Aurélio nos informa: o Diagnóstico é de Hanseníase puramente neural, uma polineuropatia raríssima, com poucos bacilos, de comportamento agressivo, em tratando, existe possibilidade de cura...Gilson e eu estávamos presentes, e só vinha a tona o fato ocorrido naquele terço com meus Pais: "Anuncie que a graça foi concedida", queríamos o diagnóstico e tivemos, ficamos muito felizes e lembro que meu pai falou: vocês estão felizes com o diagnóstico de uma doença? e respondemos, antes não sabíamos para onde rumar e agora sabemos
Ano vitorioso, vestibular, férias, comemorações e o mais importante: diagnóstico da doença de meu pai e mal sabíamos, sua via crucis
Da esquerda para a direita: Amílcar, Rosemere, Meu Pai, Minha Mãe, Rildo, de azul eu e ao meu lado Gilson. Ao fundo a Fazenda Aliança, lugar onde meus irmão foram criados
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
A colheita
Já era final de junho, me sentia preparado para o enfrentamento, havia plantado todos os sonhos naquela prova, a esperaça, desejo, vontade...tinha que ser dessa vez. Na época, um fenômeno ocorreu, triplicaram-se o número de candidatos por vaga, e a meta continuava mais alta. A prova ocorreria as 13h de uma tarde de domingo de Junho na sala 06 da Universidade do Estado do Amazonas, em Parintins, minha cidade natal. Naquele dia, levantei, tomei café com meus pais, minha mãe ao lado direito de meu pai e eu ao lado direito de minha mãe, lembro-me das reclamações de dores ditas por meu pai, com semblante cansado, emagrecido, e pernas edemaciadas. "Minha mãe forte tentava maquiar a cena dizendo: Calma meu velho, durante o decorrer do dia vai melhorar"... No almoço, meu irmão Amilcar, foi em casa e tudo transcorria com normalidade, exceto o conjunto de reações físico-químicas ocorrendo em meu organismo. Boca seca, taquicardia, banheiro de 15 em 15 minutos, abria a geladeira para pensar e lembrava toda saga trilhada, as inúmeras escolhas realizadas, as lágrimas, as saudades, as preocupações, pensava no peso sobre meus ombros, o desespero do fracasso, o medo de ficar mais um ano passando por todo pesar.
Recebi ligações 40 minutos antes (por aí) do meu irmão Rildo, seguido de Gilson e Rosemere, por telefone, passavam as vibrações positivas, Gilson comentou uma frase que minha mãe falara a eles quando criança: "Vão lá e quebrem castanhas na boca deles ", uma maneira de dizer: mostrem para os que acham que vc não pode sua capacidade, deixem que mordam suas línguas. Terminado os telefonemas, meu coração palpitava, mão suava, tomei um banho, sentei em minha cama e aos prantos de tanta adrenalina rezei pra nossa senhora, pedi proteção e calma, que fosse feita a vontade de Deus, e se possível que combinasse com a minha vontade ( kkkkkkk).Acre: uma prova, Roraima: uma prova, Amazonas: 3 provas UEA, 4 provas da UFAM, nove derrotas, nada motivante.
Me despedi de minha mãe e meu pai, tomei bença, e Amilcar me levou para o local da prova. De conversa só o silêncio, concentração máxima. Entrei na sala, deu o sinal de distribuição das provas, em seguida, o de ínício das provas, comecei escrevendo a redação, tema da redação: "Redija um texto falando sobre a política brasileira", 35 minutos depois tinha uma redação pronta. Iniciei o ataque as questões, tinha a sensação de já ter lido as questões em algum lugar, ví que apesar do sofrimento de 3 anos, tive contato com várias provas, além do que tinha resolvido inúmeras questões de vestibular.
Quando percebi, restavam 20 minutos para o término da prova, e ela estava respondida, restando serem passadas 15 questões para o gabarito, recordo-me com exatidão devido ter percebido que existião apenas 5 candidatos em sala, e eu, estava muito satisfeito com a prova, pensei com o grito preso: "Vou passar nessa po... finalmente, ficarei até o final, quero meu nome junto com outros 2 candidatos assinado na sumula do lacramento das provas de minha sala, uma forma de deixar nos anais da história", maluquice? de forma alguma...
Sai chorando da sala, a alegria explodia em minha cabeça, sabia que tinha ido bem, lembrei de toda minha história, a história da minha família, teria mais uma vez um médico meu pai, o caçula estaria encaminhado, pensei nos poucos amigos, queria ligar pro mundo e falar sobre a conquista, no entanto, a felicidade foi tanta que vim praticamente andando do lugar da prova pra minha casa com a prova em mãos. No início na Avenida Amazonas, um grande amigo do meu irmão chamado Gracilo me deu uma carona até minha casa, abracei minha mãe incontrolavelmente e disse: "Mãe eu te amo muito, obrigado por confiar em mim, obrigado por acreditar em mim, fiz a prova, e tenho quase certeza que passei", nossa... minha mãe me beijou, enxugou minhas lágrimas e lembrou-se de uma música chamada "marcha do vestibular" de autoria de Pinduca, um cantor paraense de carimbó, bem baxinho com voz emocionada escutei em meu ouvido: "Alô papai, Alô mamãe, põe a vitrola pra tocar, podem soltar foguetes que eu passei no vestibular"...
Resolvi conter minha euforia, falei com meu pai dizendo que havia feito boa prova, no entanto, tinhamos que aguardar o gabarito oficial, recordo-me que a primeira pessoa a passar em casa foi minha prima Luane, demos uma volta e retornei para casa. Ao acordar na manhã seguinte, pontualmente as 9h da manhã peguei uma carona com minha vizinha chamada: Aline e fomos até a UEA, lá estava o gabarito...de fato estava concretizado; 63 questões havia errado 14.
A partir daí comecei a escutar dezenas de possíveis pontuações, uns haviam errado 7, outros 10 e por aí corriam as notícias, resolvi aguardar o resultado do vestibular em Manaus na casa do meu irmão, e claro, iniciar os estudos para o vestibular da Ufam que ocorreria em dezembro daquele ano...
Recebi ligações 40 minutos antes (por aí) do meu irmão Rildo, seguido de Gilson e Rosemere, por telefone, passavam as vibrações positivas, Gilson comentou uma frase que minha mãe falara a eles quando criança: "Vão lá e quebrem castanhas na boca deles ", uma maneira de dizer: mostrem para os que acham que vc não pode sua capacidade, deixem que mordam suas línguas. Terminado os telefonemas, meu coração palpitava, mão suava, tomei um banho, sentei em minha cama e aos prantos de tanta adrenalina rezei pra nossa senhora, pedi proteção e calma, que fosse feita a vontade de Deus, e se possível que combinasse com a minha vontade ( kkkkkkk).Acre: uma prova, Roraima: uma prova, Amazonas: 3 provas UEA, 4 provas da UFAM, nove derrotas, nada motivante.
Me despedi de minha mãe e meu pai, tomei bença, e Amilcar me levou para o local da prova. De conversa só o silêncio, concentração máxima. Entrei na sala, deu o sinal de distribuição das provas, em seguida, o de ínício das provas, comecei escrevendo a redação, tema da redação: "Redija um texto falando sobre a política brasileira", 35 minutos depois tinha uma redação pronta. Iniciei o ataque as questões, tinha a sensação de já ter lido as questões em algum lugar, ví que apesar do sofrimento de 3 anos, tive contato com várias provas, além do que tinha resolvido inúmeras questões de vestibular.
Quando percebi, restavam 20 minutos para o término da prova, e ela estava respondida, restando serem passadas 15 questões para o gabarito, recordo-me com exatidão devido ter percebido que existião apenas 5 candidatos em sala, e eu, estava muito satisfeito com a prova, pensei com o grito preso: "Vou passar nessa po... finalmente, ficarei até o final, quero meu nome junto com outros 2 candidatos assinado na sumula do lacramento das provas de minha sala, uma forma de deixar nos anais da história", maluquice? de forma alguma...
Sai chorando da sala, a alegria explodia em minha cabeça, sabia que tinha ido bem, lembrei de toda minha história, a história da minha família, teria mais uma vez um médico meu pai, o caçula estaria encaminhado, pensei nos poucos amigos, queria ligar pro mundo e falar sobre a conquista, no entanto, a felicidade foi tanta que vim praticamente andando do lugar da prova pra minha casa com a prova em mãos. No início na Avenida Amazonas, um grande amigo do meu irmão chamado Gracilo me deu uma carona até minha casa, abracei minha mãe incontrolavelmente e disse: "Mãe eu te amo muito, obrigado por confiar em mim, obrigado por acreditar em mim, fiz a prova, e tenho quase certeza que passei", nossa... minha mãe me beijou, enxugou minhas lágrimas e lembrou-se de uma música chamada "marcha do vestibular" de autoria de Pinduca, um cantor paraense de carimbó, bem baxinho com voz emocionada escutei em meu ouvido: "Alô papai, Alô mamãe, põe a vitrola pra tocar, podem soltar foguetes que eu passei no vestibular"...
Resolvi conter minha euforia, falei com meu pai dizendo que havia feito boa prova, no entanto, tinhamos que aguardar o gabarito oficial, recordo-me que a primeira pessoa a passar em casa foi minha prima Luane, demos uma volta e retornei para casa. Ao acordar na manhã seguinte, pontualmente as 9h da manhã peguei uma carona com minha vizinha chamada: Aline e fomos até a UEA, lá estava o gabarito...de fato estava concretizado; 63 questões havia errado 14.
A partir daí comecei a escutar dezenas de possíveis pontuações, uns haviam errado 7, outros 10 e por aí corriam as notícias, resolvi aguardar o resultado do vestibular em Manaus na casa do meu irmão, e claro, iniciar os estudos para o vestibular da Ufam que ocorreria em dezembro daquele ano...
terça-feira, 9 de novembro de 2010
A plantação
Ao som de Vangelis (Conquest of the paradise) na noite do dia 10 de Janeiro de 2003, concatenamos o cronograma de quais matérias seriam estudadas, o tempo dispensado para o termino, e as provas que seriam realizadas. Elencamos o dia de folga: sábado a partir das 12h, o cuidado com a saúde: academia entre as 17:45 às 18:45 religiosamente, palavra de ordem: disciplina, pedido em vão: seria solicitar alguma excessão.
Gilson rapidamente emplacou uma frase: "O sofrimento purifica", estando fragilizado de dois anos de grandes tombos, pai doente, desacreditado pelos amigos e alguns familiares, e reduzido a pó perante todos os odiadores e invejosos de minhas conquistas, tomava uma atitude de reclusão e dedicação que neste momento conotava não só a aprovação no vestibular, além, a resolução de todos os males.
É..., definitivamente meu pai piorava a cada dia, as dores no membro inferior e o edema causado por essa polineuropatia idiopática eram insuportáveis, tornando-o incapaz de realizar seu hobby predileto: andar pelo campo. Podemos considerá-lo criador de gado, não fazendeiro, pois, o primeiro se o rebanho esta bonito não se vende e se está feia não dá lucro, o segundo possuí uma visão totalmente comercial. Apaixonado pela natureza, descrevia em detalhes o som do capim roçando suas pernas, o sentimento completo de ter alcançado o lugar longínquo, a vontade do andar que agora lhe era cerceado.
A aprovação em medicina melhoraria o astral de meu pai, dando-lhe motivos de ainda tentar lutar contra a doença rumo a minha colação de grau. Lembro-me que no ano de 2003 meu pai já havia passado centenas de unguentos como: gordura de sucurijú (cobra), óleo elétrico, pomada dos padres, pílula da vida, pomadas usadas em veterinária para problemas musculares, rezadeiras, benzedeiras e pior: Umbanda.
Sendo uma família de católicos, vi todos os preceitos sendo jogados ao ralo e junto ao meu pai, presenciei cenas grotescas de charlatanismo como: tirar bichos como besouros e esporões de arraia do pé dele sem nenhum ferimento ou sangramento, fumar cigarro ao contrário, incorporações, desenterro de trabalhos em estradas, enfim, algo que me arrependo de ter participado e deixado de ser mais incisivo com meu pai sobre isso. Ao sabor do desespero, gostaria de provar a ele de minha capacidade, como num gesto mágico o extirpasse a doença que o corroía as entranhas e lhe trouxesse a vida sem dor, edema, sofrimento ou mentiras.
Após 4 meses de estudo intenso, embarco para o Acre na tentativa de conquistar uma vaga na federal, neste vestibular fiquei em 10* na lista de espera dando real evidências de minha evolução.
A religiosidade, graças a Gilson e Genise, ficaram evidentes em meus dias, minha sintonia com Deus e a Virgem Maria engrandeceu, só eles poderiam me dar forças, esperanças e a esperada cura ou ao menos diagnóstico da enfermidade de meu pai. Rezávamos um terço todas as noites, pelo meu pai, e claro, em favor da graça de ser aprovado no vestibular. Recordo-me de um momento mágico ocorrido numa noite de Junho, dias antes de minha prova. Estávamos em frente ao oratório rezando o terço, muito concentrados minha voz iniciou a ter altos e baixos, como quem quisesse chorar e tentava conter, fiquei com a voz tremula e os olhos cheios de lágrimas, e Senhores, de prova meu irmão, senti uma mulher vestida de azul celestial entrar no apartamento, ela veio em minha direção, sorridente, linda, jovem e dizia: dedique a última dezena às almas do purgatório. Não conseguia falar ao meu irmão, estava atônito, bestificado e assustado com que presenciava, ao mesmo tempo, me sentia sujo, pequeno em receber tal visita. De fato não consegui anunciar o pedido da Senhora, no entanto, meu irmão, anunciou inesperadamente o pedido: "esta dezena, em especial nesta noite, oferecemos as almas do purgatório". A confirmação...era verdade então, nunca havíamos feito tal pedido, e meu irmão confirmou a cena que presenciava, era Nossa Senhora...
Em êxtase choramos muito nessa noite, tivemos uma prova de fé. Dias depois, rumava a Parintins para realizar a prova da Universidade do Estado do Amazonas, eram 11 vagas para 6 municípios, centenas de inscritos, era hora...a plantação estava pronta, restava-me tentar colher os frutos de toda essa peleja...que venha a prova.
Gilson rapidamente emplacou uma frase: "O sofrimento purifica", estando fragilizado de dois anos de grandes tombos, pai doente, desacreditado pelos amigos e alguns familiares, e reduzido a pó perante todos os odiadores e invejosos de minhas conquistas, tomava uma atitude de reclusão e dedicação que neste momento conotava não só a aprovação no vestibular, além, a resolução de todos os males.
É..., definitivamente meu pai piorava a cada dia, as dores no membro inferior e o edema causado por essa polineuropatia idiopática eram insuportáveis, tornando-o incapaz de realizar seu hobby predileto: andar pelo campo. Podemos considerá-lo criador de gado, não fazendeiro, pois, o primeiro se o rebanho esta bonito não se vende e se está feia não dá lucro, o segundo possuí uma visão totalmente comercial. Apaixonado pela natureza, descrevia em detalhes o som do capim roçando suas pernas, o sentimento completo de ter alcançado o lugar longínquo, a vontade do andar que agora lhe era cerceado.
A aprovação em medicina melhoraria o astral de meu pai, dando-lhe motivos de ainda tentar lutar contra a doença rumo a minha colação de grau. Lembro-me que no ano de 2003 meu pai já havia passado centenas de unguentos como: gordura de sucurijú (cobra), óleo elétrico, pomada dos padres, pílula da vida, pomadas usadas em veterinária para problemas musculares, rezadeiras, benzedeiras e pior: Umbanda.
Sendo uma família de católicos, vi todos os preceitos sendo jogados ao ralo e junto ao meu pai, presenciei cenas grotescas de charlatanismo como: tirar bichos como besouros e esporões de arraia do pé dele sem nenhum ferimento ou sangramento, fumar cigarro ao contrário, incorporações, desenterro de trabalhos em estradas, enfim, algo que me arrependo de ter participado e deixado de ser mais incisivo com meu pai sobre isso. Ao sabor do desespero, gostaria de provar a ele de minha capacidade, como num gesto mágico o extirpasse a doença que o corroía as entranhas e lhe trouxesse a vida sem dor, edema, sofrimento ou mentiras.
Após 4 meses de estudo intenso, embarco para o Acre na tentativa de conquistar uma vaga na federal, neste vestibular fiquei em 10* na lista de espera dando real evidências de minha evolução.
A religiosidade, graças a Gilson e Genise, ficaram evidentes em meus dias, minha sintonia com Deus e a Virgem Maria engrandeceu, só eles poderiam me dar forças, esperanças e a esperada cura ou ao menos diagnóstico da enfermidade de meu pai. Rezávamos um terço todas as noites, pelo meu pai, e claro, em favor da graça de ser aprovado no vestibular. Recordo-me de um momento mágico ocorrido numa noite de Junho, dias antes de minha prova. Estávamos em frente ao oratório rezando o terço, muito concentrados minha voz iniciou a ter altos e baixos, como quem quisesse chorar e tentava conter, fiquei com a voz tremula e os olhos cheios de lágrimas, e Senhores, de prova meu irmão, senti uma mulher vestida de azul celestial entrar no apartamento, ela veio em minha direção, sorridente, linda, jovem e dizia: dedique a última dezena às almas do purgatório. Não conseguia falar ao meu irmão, estava atônito, bestificado e assustado com que presenciava, ao mesmo tempo, me sentia sujo, pequeno em receber tal visita. De fato não consegui anunciar o pedido da Senhora, no entanto, meu irmão, anunciou inesperadamente o pedido: "esta dezena, em especial nesta noite, oferecemos as almas do purgatório". A confirmação...era verdade então, nunca havíamos feito tal pedido, e meu irmão confirmou a cena que presenciava, era Nossa Senhora...
Em êxtase choramos muito nessa noite, tivemos uma prova de fé. Dias depois, rumava a Parintins para realizar a prova da Universidade do Estado do Amazonas, eram 11 vagas para 6 municípios, centenas de inscritos, era hora...a plantação estava pronta, restava-me tentar colher os frutos de toda essa peleja...que venha a prova.
| Eis o Doutrinador e a Doutrinadora, saudades... |
terça-feira, 2 de novembro de 2010
O enfrentamento
Meu pai Manoelino e minha mãe Enildete, são primos próximos, ambos viviam no interior do estado do Pará, e interior, entende-se sem energia, tv, internet, estradas, e até mesmo motores para locomoção em embarcações, um povo sofrido onde seu futuro dependiam de duas coisas: trabalho e honestidade, essas eram moedas correntes da época. Destacavam-se os homens que eram honestos, onde nem sempre posses significariam honrar seus compromissos e a fama andava longe.
Meu pai estava praticamente as vésperas de namorar uma outra moça quando conheceu minha mãe, ela perdido a mãe aos 8 anos de idade e como na época era tradição que as filhas mais velhas cuidassem das mais novas em caso de morte da mãe, o que era o caso, minha mãe conta que morou com sua irmã Nadir, uma mulher letrada casada com um fazendeiro trabalhador onde tinha que ajudar nos trabalhos domésticos, lá chegou a cozinhar para 40 homens. Ele (papai) com fama de honesto, conhecido no Igarapé dos Currais como homem de coragem, onde jamais se viu uma mentira, ou se quer, não cumprir com suas obrigações, muito dedicado aos seus pais. Meu avô não tinha a quarta série, no entanto possuía uma letra de dar inveja a qualquer letrado, educado e bondoso era conhecido por suas famosas selas chamada: "Selas Mário Lobo".
Após o casamento, meus pais foram morar numa fazenda chamada Aliança, pequeno paraíso, onde na época era cercada de mata com um caminho estreito em direção ao lago Piraruacá ( Pira = peixe; Oca = casa; casa de peixes), uma casa modesta de palafita ( modelo de casas construídas sobre terrenos que recebem águas em períodos do ano, que no caso, chamamos de cheia), contruida em uma ponta de praia de água doce e negra que ao sabor dos ventos erguiam cristas de marolas brancas onde lentamente se desfaziam na praia branca da propriedade, o cheiro típico de frutas peculiares da região aromatizavam o lugar, e faziam deste pedaço de chão fecundo e acolhedor para o início de uma história.
Do enlace, nasceram neste lugar 4 filhos: Rildo, Rosemere, Amilcar e Gilson, todos descrevem com saudosismo os momentos de infância, onde não iam para as aulas de inglês, judo, ou creches, jantavam pontualmente as 18h da tarde e conversavam sobre o dia. Aos nove anos de idade meu irmão Rildo já lia os Gibis que meu pai trazia da cidade próxima (Terra Santa), além do que, tinha praticamente lido toda a bíblía, seu Manoelino compreendeu, precisava investir nos estudos de um menino que não se conformava com a sorte de permanecer ali, casar e construir uma casa ao lado ( como era costume).
Meus avós, possuíam uma casa em Terra Santa e para lá os quatro foram estudar. Gilson conta do susto levado ao se deparar com um caminhão alemão da época que cruzava a rua , o mesmo saiu disparado pelos quintais da vizinhança com medo de tal assombro. O estudo restrito, levou meu pai a tomar uma outra atitude, enviá-los a Parintins, e dessa vez minha mãe foi com eles.
Alugaram uma casa na Rua 31 de Março, coincidência ou não data de seu aniversário. Meu pai ficou na Aliança, tinha uma venda, espécie de mercadinho, e de lá extraía condições para manutenção dos estudos de seus filhos. Rildo percebendo as condições de seu pai, resolveu entrar no seminário para seguir os estudos e torna-se padre, o que foi um choque para meu pai. Dois anos depois, o superior do Seminário informa que Rildo não seguiria com o dom.
Ao sair do retiro, meu irmão decide rumar a Manaus, objetivo: estudar para o vestibular, problemas: não conhecia ninguém, meu pai não tinha como o manter em uma casa, no entanto, ele conheceu um padre no seminário que lhe deu abrigo nos primeiros dias de sua estada na capital do Amazonas. Após a acolhida na casa de um amigo de meu pai, a notícia de que Rildo não tinha futuro ( segundo esse"amigo"de meu pai) o deixou preocupado. Em absoluto, Rildo estudava obstinadamente, e 1 ano, 1983, foi aprovado em 14* lugar no curso de medicina. Entenda, viviam numa época mágica, ser médico era ter fé pública, era ser admirado, jamais passava até mesmo na cabeça de meu pai que um menino do Igarapé dos Currais passaria no Vestibular, o tempo, o som, e até mesmo a luz paralisaram para Manoelino ao ter a notícia que seu filho mais velho seria um médico. Inacreditável.
Por isso, Rildo recebeu minha homenagem na postagem denominada: A saga. Trata-se do iniciador de uma trajetória, pois, se ele conseguiu, nós também poderíamos. Ele me conta que mamãe estava grávida de mim de aproximadamente 7 meses quando o reencontrou, e não titubeou, carregou o prodígio no colo não atentando para sua condição de tanta felicidade.
No ano de 2002 morava com Rildo, como disse em postagens passadas, Gilson havia me convidado para morar, estava retornando de sua especialização em oftalmologia em São Paulo. O natal desse ano, passamos na fazenda onde nasceram, agora mais cuidada, uma nova casa toda avarandada construída com madeira de lei no exato lugar da antiga. Meu cunhado: Cândido, com meus sobrinhos: Tales e Thaís trouxeram um cajueiro, e plantaram no mesmo lugar do que havia, ele teria sido morto pelas cheias constantes que assolaram o lugar. Não entendia o motivo de nos locomovermos de Manaus até a fazenda, onde a logística era complicada e enfrentávamos 6 horas de barco, 40 min de estrada, e aproximadamente 1 hora de barco para chegar na Aliança.
Aquele natal foi mágico, meu pai, já adoecido com a polieuropatia que até então era idiopática. Todos estavam lá, contamos histórias até altas horas da noite, ceamos, e morríamos de rir com as piadas de meu pai que contava do quarto final da casa. Mesmo doente, parecia imbatível, inabalável.
No dia seguinte, nos despidimos de nossos pais e deixamos a casa vazia. Ao chegar em Manaus em pouco tempo mudei para onde meu irmão iria morar, e no dia 09 de Janeiro de 2003 tive uma conversa inesquecível com meu irmão Gilson.
Ele me perguntou se eu realmente queria fazer medicina, se sabia que ao abraçar a profissão não teria feriado, dia santo, muito menos deixaria de ser médico ao retornar para minha casa, um pouco assustado respondi: mesmo assim desejo ser médico. Ele retrucou: pense melhor, amanhã me responda.
Dormi assustado e pensativo. No dia seguinte no café, já o avisei, sim é isso que quero. Ao retornar do trabalho, montamos um cronograma e uma estratégia de estudos, não frequentaria cursinho, pois, tinha o material a disposição em casa, fruto do terceiro ano do segundo grau que estudei nos Colégios Objetivo. Isso me deixou preocupado, no entanto, chamei a responsabilidade para minhas costas, e o fracasso ou a vitória dependeria apenas de mim.
Segui o cronograma rígido, tinha horário para tudo, inclusive para frequentar a academia, das 18:30 as 19:30, quando chegávamos ele dormia, e eu ficava até meia noite estudando. Meu fim de semana restringia-se a um sábado a tarde, pois pela manhã era dedicado a redação.
Chorava quase todas as noites a ver carnaval, aniversários, e outros eventos passarem sem minha presença. Entrei no que podemos chamar de retiro intelectual. Essa rotina pesada só foi quebrada em duas ou três vezes as quais ou fomos a casa de Amarildo ( amigo irmão de Gilson) ou a um Show de Nilson Chaves que recebi como um presente. E as coisas não pararam por aí...
Fazenda Aliança nos dias Atuais.
Meu pai estava praticamente as vésperas de namorar uma outra moça quando conheceu minha mãe, ela perdido a mãe aos 8 anos de idade e como na época era tradição que as filhas mais velhas cuidassem das mais novas em caso de morte da mãe, o que era o caso, minha mãe conta que morou com sua irmã Nadir, uma mulher letrada casada com um fazendeiro trabalhador onde tinha que ajudar nos trabalhos domésticos, lá chegou a cozinhar para 40 homens. Ele (papai) com fama de honesto, conhecido no Igarapé dos Currais como homem de coragem, onde jamais se viu uma mentira, ou se quer, não cumprir com suas obrigações, muito dedicado aos seus pais. Meu avô não tinha a quarta série, no entanto possuía uma letra de dar inveja a qualquer letrado, educado e bondoso era conhecido por suas famosas selas chamada: "Selas Mário Lobo".
Após o casamento, meus pais foram morar numa fazenda chamada Aliança, pequeno paraíso, onde na época era cercada de mata com um caminho estreito em direção ao lago Piraruacá ( Pira = peixe; Oca = casa; casa de peixes), uma casa modesta de palafita ( modelo de casas construídas sobre terrenos que recebem águas em períodos do ano, que no caso, chamamos de cheia), contruida em uma ponta de praia de água doce e negra que ao sabor dos ventos erguiam cristas de marolas brancas onde lentamente se desfaziam na praia branca da propriedade, o cheiro típico de frutas peculiares da região aromatizavam o lugar, e faziam deste pedaço de chão fecundo e acolhedor para o início de uma história.
Do enlace, nasceram neste lugar 4 filhos: Rildo, Rosemere, Amilcar e Gilson, todos descrevem com saudosismo os momentos de infância, onde não iam para as aulas de inglês, judo, ou creches, jantavam pontualmente as 18h da tarde e conversavam sobre o dia. Aos nove anos de idade meu irmão Rildo já lia os Gibis que meu pai trazia da cidade próxima (Terra Santa), além do que, tinha praticamente lido toda a bíblía, seu Manoelino compreendeu, precisava investir nos estudos de um menino que não se conformava com a sorte de permanecer ali, casar e construir uma casa ao lado ( como era costume).
Meus avós, possuíam uma casa em Terra Santa e para lá os quatro foram estudar. Gilson conta do susto levado ao se deparar com um caminhão alemão da época que cruzava a rua , o mesmo saiu disparado pelos quintais da vizinhança com medo de tal assombro. O estudo restrito, levou meu pai a tomar uma outra atitude, enviá-los a Parintins, e dessa vez minha mãe foi com eles.
Alugaram uma casa na Rua 31 de Março, coincidência ou não data de seu aniversário. Meu pai ficou na Aliança, tinha uma venda, espécie de mercadinho, e de lá extraía condições para manutenção dos estudos de seus filhos. Rildo percebendo as condições de seu pai, resolveu entrar no seminário para seguir os estudos e torna-se padre, o que foi um choque para meu pai. Dois anos depois, o superior do Seminário informa que Rildo não seguiria com o dom.
Ao sair do retiro, meu irmão decide rumar a Manaus, objetivo: estudar para o vestibular, problemas: não conhecia ninguém, meu pai não tinha como o manter em uma casa, no entanto, ele conheceu um padre no seminário que lhe deu abrigo nos primeiros dias de sua estada na capital do Amazonas. Após a acolhida na casa de um amigo de meu pai, a notícia de que Rildo não tinha futuro ( segundo esse"amigo"de meu pai) o deixou preocupado. Em absoluto, Rildo estudava obstinadamente, e 1 ano, 1983, foi aprovado em 14* lugar no curso de medicina. Entenda, viviam numa época mágica, ser médico era ter fé pública, era ser admirado, jamais passava até mesmo na cabeça de meu pai que um menino do Igarapé dos Currais passaria no Vestibular, o tempo, o som, e até mesmo a luz paralisaram para Manoelino ao ter a notícia que seu filho mais velho seria um médico. Inacreditável.
Por isso, Rildo recebeu minha homenagem na postagem denominada: A saga. Trata-se do iniciador de uma trajetória, pois, se ele conseguiu, nós também poderíamos. Ele me conta que mamãe estava grávida de mim de aproximadamente 7 meses quando o reencontrou, e não titubeou, carregou o prodígio no colo não atentando para sua condição de tanta felicidade.
No ano de 2002 morava com Rildo, como disse em postagens passadas, Gilson havia me convidado para morar, estava retornando de sua especialização em oftalmologia em São Paulo. O natal desse ano, passamos na fazenda onde nasceram, agora mais cuidada, uma nova casa toda avarandada construída com madeira de lei no exato lugar da antiga. Meu cunhado: Cândido, com meus sobrinhos: Tales e Thaís trouxeram um cajueiro, e plantaram no mesmo lugar do que havia, ele teria sido morto pelas cheias constantes que assolaram o lugar. Não entendia o motivo de nos locomovermos de Manaus até a fazenda, onde a logística era complicada e enfrentávamos 6 horas de barco, 40 min de estrada, e aproximadamente 1 hora de barco para chegar na Aliança.
Aquele natal foi mágico, meu pai, já adoecido com a polieuropatia que até então era idiopática. Todos estavam lá, contamos histórias até altas horas da noite, ceamos, e morríamos de rir com as piadas de meu pai que contava do quarto final da casa. Mesmo doente, parecia imbatível, inabalável.
No dia seguinte, nos despidimos de nossos pais e deixamos a casa vazia. Ao chegar em Manaus em pouco tempo mudei para onde meu irmão iria morar, e no dia 09 de Janeiro de 2003 tive uma conversa inesquecível com meu irmão Gilson.
Ele me perguntou se eu realmente queria fazer medicina, se sabia que ao abraçar a profissão não teria feriado, dia santo, muito menos deixaria de ser médico ao retornar para minha casa, um pouco assustado respondi: mesmo assim desejo ser médico. Ele retrucou: pense melhor, amanhã me responda.
Dormi assustado e pensativo. No dia seguinte no café, já o avisei, sim é isso que quero. Ao retornar do trabalho, montamos um cronograma e uma estratégia de estudos, não frequentaria cursinho, pois, tinha o material a disposição em casa, fruto do terceiro ano do segundo grau que estudei nos Colégios Objetivo. Isso me deixou preocupado, no entanto, chamei a responsabilidade para minhas costas, e o fracasso ou a vitória dependeria apenas de mim.
Segui o cronograma rígido, tinha horário para tudo, inclusive para frequentar a academia, das 18:30 as 19:30, quando chegávamos ele dormia, e eu ficava até meia noite estudando. Meu fim de semana restringia-se a um sábado a tarde, pois pela manhã era dedicado a redação.
Chorava quase todas as noites a ver carnaval, aniversários, e outros eventos passarem sem minha presença. Entrei no que podemos chamar de retiro intelectual. Essa rotina pesada só foi quebrada em duas ou três vezes as quais ou fomos a casa de Amarildo ( amigo irmão de Gilson) ou a um Show de Nilson Chaves que recebi como um presente. E as coisas não pararam por aí...
Fazenda Aliança nos dias Atuais.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Segundo Ano de Quedas...
No dia 31 de dezembro de 2001, passei as festas de fim de ano com a família, na bagagem o balanço amargo de 2 vestibulares consecutivos sem sucesso. Perdi os contatos realizados com meus amigos do curso de direito, já havia deixado meus amigos em minha cidade natal, e enfim, o mundo desaba sobre minha cabeça. Como todo empolgado, mentalizei que este ano sim, seria diferente, planejava até abrir conta corrente, cartão de crédito, tudo caso aprovado, seria a carta de alforria, INDEPENDÊNCIA...tudo o que precisava era não ser o centro das atenções, ainda mais de uma maneira negativa como: O REPROVADO.
Me matriculei em um cursinho chamado BIOSFERA, dedicado ao treinamento de estudantes que pretendiam ingressar na área de ciências da saúde, lá encontrei grandes mestres, um deles Mozart, nasceu e morou em Aparecida do Taboado, o clima era intenso. Minha sobrinha, Riselma, galgava uma vaga também, estávamos juntos, no mesmo barco. Conheci novos amigos neste lugar, e logo no primeiro semestre fui fazer uma prova na Universidade de Roraima, Boa Vista, e dessa vez passei perto, eram apenas 30 vagas e eu fiquei em quadragésimo. Deu um gás, no início do segundo semestre presto a prova para a estadual e novamente passo longe, assisto dezenas de amigos passarem na estadual e me vejo solitário persistindo no cursinho.
Neste ano, meu pai inicia um quadro de polineuropatia de membros inferiores, sem diagnóstico da causa real, com queixas leves, no entanto, o alarme de sua saúde começa a dar os primeiros sinais de que algo não andava bem. Um fato novo inicia-se, meu irmão Gilson (o da foto do cabeçalho), médico oftalmologista, já pensava em regressar a Manaus com sua esposa Genise, me fez a proposta de morar com ele ao retornar, e aceitei o convite.
Poucos amigos, sem festas, ainda não decidido e indisciplinado a passar, reprovo nos exames da Federal. Aqui meus amigos iniciou-se um dilema, abandonei o curso de direito, a família em Parintins, desconfortável em morar na casa do meu irmão Rildo sem ajudar nas despesas, envergonhado com os amigos que torciam por mim, e mais, desapontado por não ter provado aos que não acreditavam em mim que seria capaz de passar no curso de medicina.
A vida estava de pernas pro ar, estava mais perdido do que chiclete na boca de um banguela, desacreditado de minha própria capacidade, recebi uma notícia a qual me impulsionou, um amigo de Parintins me informou que em conversa com meu professor (lembram-se Jocifran) de português, disse de sua tristeza de não ter encontrado meu nome no listão dos aprovados, no entanto, era questão de tempo.
Parecia pouco, um único amigo verbalizar seu desejo de bem querência, existiam outros torcedores, mais, nada melhor que seu formador acreditar em sua formação. E agora, pensava nos créditos dados a mim e em meu pai adoecido, lutava contra um cronômetro ao qual fabriquei em minha mente.
E passei as festas de fim de ano (agora de 2002) com minha família novamente, apresentando uma novidade: moraria no ano de 2003 com meu irmão Gilson e sua esposa...a acreditem, foi muito diferente...
Me matriculei em um cursinho chamado BIOSFERA, dedicado ao treinamento de estudantes que pretendiam ingressar na área de ciências da saúde, lá encontrei grandes mestres, um deles Mozart, nasceu e morou em Aparecida do Taboado, o clima era intenso. Minha sobrinha, Riselma, galgava uma vaga também, estávamos juntos, no mesmo barco. Conheci novos amigos neste lugar, e logo no primeiro semestre fui fazer uma prova na Universidade de Roraima, Boa Vista, e dessa vez passei perto, eram apenas 30 vagas e eu fiquei em quadragésimo. Deu um gás, no início do segundo semestre presto a prova para a estadual e novamente passo longe, assisto dezenas de amigos passarem na estadual e me vejo solitário persistindo no cursinho.
Neste ano, meu pai inicia um quadro de polineuropatia de membros inferiores, sem diagnóstico da causa real, com queixas leves, no entanto, o alarme de sua saúde começa a dar os primeiros sinais de que algo não andava bem. Um fato novo inicia-se, meu irmão Gilson (o da foto do cabeçalho), médico oftalmologista, já pensava em regressar a Manaus com sua esposa Genise, me fez a proposta de morar com ele ao retornar, e aceitei o convite.
Poucos amigos, sem festas, ainda não decidido e indisciplinado a passar, reprovo nos exames da Federal. Aqui meus amigos iniciou-se um dilema, abandonei o curso de direito, a família em Parintins, desconfortável em morar na casa do meu irmão Rildo sem ajudar nas despesas, envergonhado com os amigos que torciam por mim, e mais, desapontado por não ter provado aos que não acreditavam em mim que seria capaz de passar no curso de medicina.
A vida estava de pernas pro ar, estava mais perdido do que chiclete na boca de um banguela, desacreditado de minha própria capacidade, recebi uma notícia a qual me impulsionou, um amigo de Parintins me informou que em conversa com meu professor (lembram-se Jocifran) de português, disse de sua tristeza de não ter encontrado meu nome no listão dos aprovados, no entanto, era questão de tempo.
Parecia pouco, um único amigo verbalizar seu desejo de bem querência, existiam outros torcedores, mais, nada melhor que seu formador acreditar em sua formação. E agora, pensava nos créditos dados a mim e em meu pai adoecido, lutava contra um cronômetro ao qual fabriquei em minha mente.
E passei as festas de fim de ano (agora de 2002) com minha família novamente, apresentando uma novidade: moraria no ano de 2003 com meu irmão Gilson e sua esposa...a acreditem, foi muito diferente...
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
A saga
Em 1999, morava em Parintins - minha cidade natal - cursava na Escola Senador João Bosco o segundo ano do 2 grau. Tudo estava calmo em uma rotina prazerosa no aconchego do meu lar, com meus pais.
Numa viagem de férias a Manaus, janeiro de 2000 precisamente dia 17, fui surpreendido por meu irmão Rildo com uma proposta: "Você topa cursar o terceiro ano do segundo grau aqui em Manaus?", e daí inicia a saga, separo de meus pais, amigos e vizinhos que os conhecia há praticamente 16 anos, da minha rotina agradável, e começo a sair da linha do conforto e encarar ônibus, morar com meu irmão o qual pra se ter idéia no ano de meu nascimento: 1983, ele estava sendo aprovado no curso de medicina na UFAM. A distância de meus pais, a saudade de meus amigos maltrataram aquele ano, era um garoto do interior sem conhecimento de internet, e lembro-me que quando descobri o Mirc ele já havia saído de moda há tempos...Iniciei os estudos no Colégio Objetivo, e como era uma oportunidade abracei com unhas e dentes, no entanto levei tanto a sério que me pouco tempo me tornei o Nerd da turma. Ficava de fora das festinhas, não era popular, só lembravam de mim na época do Festival de Parintins quando a pergunta rolava: podemos ficar na sua casa?
Com altos e baixos, aos trancos e barrancos terminei o segundo grau, imagine...todos meus estudos foram em escola pública em Parintins onde apesar de todos os esforços de meus professores ( e aqui uma breve homenagem ao meu professor e amigo Jocifran Martins) estava eu aquém do necessário para ser aprovado no vestibular. Prestei vestibular nas Faculdades Objetivo no final de 2000, por ter ficado em boa colocação a faculdade me ofereceu um período do curso com um excelente desconto, o curso: Direito.
Antes de entra na sala de aula, no meu primeiro dia resolvi mudar de atitude, estava decretado: daquele momento em diante conheceria pessoas, faria novas amizades, queria e precisava ser SOCIAL. Não demorou muito e fui presenteado como representante de sala, parece bobagem pra você, mais pra mim representou um salto de qualidade, quanta lembrança boa daquela turma...Ingrid, Sérgio, Marlene, Diogo, grandes amigos de coração que deslocaram-se em outra trajetória os quais apenas me resta a brisa fria da saudade. Se um dia vocês lerem, fica a homenagem.
Já era maio de 2001, o primeiro período já estava nas vésperas do término, quando foi criada a UEA, Universidade do Estado do Amazonas, e resolvi parar meu curso e iniciar outro, totalmente diferente do que estava fazendo, desafiador...medicina. Meus pais ficaram preocupados, amigos desapontados, e eu também senti medo de fracassar, pensei por vezes se minha decisão não me faria mal, estava na faculdade, com amigos, era social, na crista da onda, e repentinamente jogo tudo pro ar.
Comecei a estudar, em Junho de 2001 faço a prova e não consigo a aprovação...Perdi o apreço de meus amigos, ganhei a preocupação de meus pais e irmãos e agora sim, tudo era um grande nevoeiro o qual não sabia em que direção seguir. No mesmo ano presto vestibular na federal e não consigo...é, 2002 prometia...
domingo, 24 de outubro de 2010
Primeiro contato
Olá, dedico esta página à modernidade. Farei dela um instrumento de comunicação com amigos, desconhecidos, anônimos, pacientes e curiosos que torcem, pretendem torcer, identificam-se ou com minha especialização (Anestesiologia) ou com minha história de vida. Seja este um documento vivo e público aos meus pacientes os quais perceberão o quão árdua a preparação: sofri, chorei, sacrifiquei, noites de vigília e preocupações, no entanto, lembro-me a todo instante de uma frase usada em obras para acalmar a população: "Os Transtornos serão passageiros, mas os Benefícios serão ETERNOS. ". Faremos uma sequência cronológica onde a história iniciará da aprovação no Vestibular até os dias atuais. Aguardem.
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